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[Análise] Hypnospace Outlaw

Um universo denso e vibrante

Originalmente publicado em 02/04/2019

Isaac Asimov previu o funcionamento da Internet, Nikola Tesla previu o uso de uma tecnologia sem fio, Rogert Ebert previu filmes sob demanda. Ninguém previu que a população usaria pochetes novamente sem sentir um pingo de vergonha na cara.

Tendências, especialmente na moda, são o maior mistério da humanidade. A mesma indústria que trouxe as calças saruel, passou boa parte da virada do milênio apontando que a pochete era uma peça cafona e pertencia ao passado.

Agora foi reintroduzida ao mercado, possui a mesma funcionalidade, mas com uma cara nova e moderna. Na gringa, deram uma enfeitada trocando o nome de ‘fanny pack’ para ‘belt pouch’, já no Braza, chamam a peça de ‘doleira’ porque a crise econômica não existe e tá todo mundo esbanjando moeda estrangeira.

Essa virada de significado do objeto associado ao paizão bobo pro cara descolado é assustador, tanto que marcas como Gucci e Yves Saint Laurent têm uma pochete para chamar de sua.

Falei um pouco disso quando escrevi sobre Wrong Box, experiência que resgatava imagens da internet antiga para celebrar no contexto atual. Segue essa tendência de olhar para o passado, rir dele um pouco e falar que gosta bastante – mesmo sendo um pouco cafona.

A diferença com a reintrodução da pochete é que, apesar de manter as funcionalidades, sua aparência traz um visual moderno. Essa abordagem é antiga, mas estamos chegando na época em que os anos 2000 estão sendo alvos disso.

Esse é o período do nascimento da internet, de como a sociedade teve que se adaptar a uma nova forma de comunicação. Da criação de fóruns, canais de compartilhamento de música, diversão online e quantidades absurdas de reais ganhos em banners duvidosos.

Wrong Box não foi o primeiro jogo a seguir nessa vertente, apesar de ser único por utilizar de conteúdo real. Existe um gênero bem específico de jogos que criam sua própria versão da internet e piram em cima disso.

Her StoryEmily is AwayDigital e Mainling, utilizam o visual antigo da internet seja em um sistema de chat a la ICQ, um sistema de busca por palavras chaves ou criar seu próprio sistema operacional.

Nenhum deles foi além e desenvolveu um universo paralelo que existem totalmente online que nem Hypnospace Outlaw.

É uma versão alternativa do final dos anos 90, onde as pessoas estão achando chato dormir e resolvem entrar em um mundo virtual cheio de possibilidades ao colocar uma testeira eletrônica.

Descansar pra quê se você pode conversar seus amigos sobre aquela banda obscura que você descobriu em fórum?

Mas, enquanto o cidadão quer se divertir, tem gente que quer causar o caos e bagunçar com o rolê. O seu papel é de fiscalizar o Hypnospace, utilizando uma versão específica do sistema operacional HypnOs para aplicar a lei digital quando necessário.

Conteúdo protegido por direitos autorais, assédio verbal, atividade ilegal, software malicioso e comércio extralegal, essas são as violações que você precisa ficar de olho e agir.

É como se a Globo tivesse feito um jogo do Detetive Virtual que se passe no final dos anos 90 sem o Tadeu Schmidt.

E falando em grandes investigadores, nunca me senti tão uma cópia intelectualmente limitada de Sherlock Holmes como aqui. Durante o seu tempo surfando pela web de mentira, você vai vasculhar cada centímetro das dezenas de páginas atrás de infrações – e o jogo não facilita nem um pouco.

Você pode descer o martelo da justiça a qualquer hora através de um ícone no navegador quando vê uma infração, mas boa parte da experiência você terá como guia e-mails que recebe da equipe de segurança. contendo o que realmente deve procurar.

Logo de cara, esse é o maior problema de Hypnospace Outlaw, ele é abarrotado de conteúdo e a solução para algumas das missões é abrir cada página manualmente. Existe uma lógica para isso que está soterrada e fica difícil tentar criar algum raciocínio, alguns dos caminhos são obtusos.

No começo você recebe uma missão direta, sabendo exatamente para onde deve ir. Ao longo da jornada os objetivos ficam vagos, com o mínimo de direção possível, sendo difícil entender por caminho deve seguir. O jogo coloca a responsabilidade de você lembrar de detalhes pequenos em certas páginas, do comportamento de certos personagens para que quando ele faça uma referência horas depois, tudo fique fácil. Mas não fica.

Falta uma coesão e um caminho mais lógico para as missões, porque resolver com força bruta nunca é algo divertido. Também não é um problema único, alguns jogos caem nessa questão quando se trata de exploração e muito conteúdo, fica nebuloso saber para onde querem que você vá.

Isso me incomodou bastante, quase desisti de quebrar a cabeça dessa maneira tendo apenas umas linhas de um e-mail para me guiar.

Mesmo assim, mesmo com esse gosto amargo, consigo dizer que é uma experiência completamente deliciosa e incrível.

Por mais que Hypnospace seja uma versão alternativa da nossa realidade, ele é o jogo com um nível de profundidade e realismo que me impressiona pela sua autenticidade e sinceridade.

Basicamente, os criadores têm um certo saudosismo do GeoCities, serviço de hospedagem que bombou durante os anos 90 e as páginas que você vai acessar são paródias perfeitas.

Existe uma inocência, uma sinceridade na maneira de como as pessoas escreviam no começo da internet. Basta pegar qualquer texto criado naquela época para entender melhor: eu mesmo não consigo explicar direito.

Mas essa essência de não saber muito bem o que é esse novo universo digital, e ver que outras pessoas compartilham dos mesmos interesses, é capturado com maestria aqui. Desde Firewatch que não via personagens tão bem escritos e construídos. Não só isso, mas a internet paralela criada nesse universo é muito crível.

O Hypnospace possui ‘zonas’ e cada uma tem um tema específico. Cada uma delas se comporta como um fórum e as páginas, embora sejam diferentes entre si, continuam dentro da temática. Tipo a ‘Open Eyed’, lugar dedicado ao pensamento livre, com pessoas discutindo questões esotéricas, religião e claro, teorias da conspiração. Que nem um cara defendendo que o esporte do momento ‘Trennis’ é uma ideia roubada de um parente seu distante de um jogo chamado ‘Tênis’.

Esse é o maior trunfo do jogo, ele sabe exatamente quais são as forças e toma o cuidado de lapidar para que tudo se junte de forma coerente. Por mais que as missões em si tenham seus problemas, o esforço foi todo colocado na criação de páginas-sátiras ao GeoCities.

Na verdade, não sei se sátira é o termo correto. É óbvio que os desenvolvedores têm consciência do que estão fazendo, tudo escrito ali é sério pelo realismo, para que a gente acredite que aquele mundo existe, mas ao mesmo tempo estamos ligados que essa época era bem cafona.

Muito do humor que é gerado pelos gifs, as músicas, as páginas mal feitas, os erros de tipografia, são elementos que contribuem para tornar a experiência algo próximo ao real. Basta ir no arquivo do GeoCities ou dá uma passeada no Blogger ou relembrar do Orkut, a risada vem pela empatia, por que você já fez ou viu aquilo.

Saber capturar a inocência dos primórdios da internet é a maior qualidade do jogo, todos ali estão de alguma maneira tentando entender como se comunica nessa revolução da comunicação. Por isso ao ser atribuído casos para exercer a justiça nos delinquentes, você pode sentir um pouco de dó, o pessoal as vezes não fez por mal.

Mas é o seu trabalho e ele vai evoluindo, deixa de ser apenas para identificar o problema e aplicar as punições, indo além. Por mais que as missões sejam vagas e obtusas, elas são assim para dar incentivo para você abusar dos recursos do seu navegador. Procurar pelo perfil do cidadão, procurar por palavras-chave ou ir em links escondidos.

O Hypnospace funciona tal qual a nossa internet, existem páginas não indexadas, hackers realizam ataques, galera compartilha música, pessoas não estão satisfeitas com o serviço e o ano 2000 vai trazer o fim da humanidade. Igualzinho.

É difícil não se apaixonar, se emocionar e ficar impressionado com a quantidade de detalhes inseridos apenas para deixar esse mundo coeso. Parte da diversão é a surpresa, não adianta exemplificar tudo, mas o elemento que mais me fascinou foi o tratamento musical.

Quase toda página possui uma música, tal qual aquela página do seu crush que tocava ‘Linkin Park – Numb’ toda vez que entrava. Algumas são originais, outras de artistas que seguem a mesma vibe do jogo, como ‘Hot Dad’ que interpreta aquele tipo de música que seu pai faria sob o nome ‘Chowder Man’.

A quantidade de artistas fictícios é absurda, sendo possível comprar com a moeda do jogo algumas músicas e álbuns inteiros. Tudo dentro dessa estética early 2000 dentro do contexto desse universo que possui gêneros próprios, como ‘Haze’: uma atitude criativa e uma abordagem a gravação que enfatiza beleza, experimentação e emoção.

Zared, que está no ‘Open Eyed’ que mencionei anteriormente, pertence ao subgênero ‘Earth Haze’ que soa como se um espírito de um lobo que obteve um sintetizador dos anos 80 e fez uma ode à terra.

Isso é apenas uma pontinha bem pequena do que essa dimensão alternativa digital proporciona. Sinto que é um exemplo de como referenciar uma época com respeito, senso de humor, se apropriando da estética e ao mesmo tempo seguindo uma direção nova e única. Hypnospace Outlaw utiliza a pochete com orgulho e não quer estampar uma logo da Gucci, por que existem maneiras mais honestas de utilizar o passado como referência estética no presente.

Hypnospace Outlaw está disponível na Steam por R$37,90

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