Originalmente publicado em 24/02/2016 no OuterPixel
Eu faço de tudo para evitar qualquer tipo de exposição a terror/horror. Não é por causa de gosto, só que sou a pessoa mais medrosa que conheço e me assusto com uma facilidade que o caro leitor nem imagina.
Assisti Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal e durante os 84 minutos de pura mediocridade, só queria ir embora. Escondia meu rosto quando previa uma cena de susto, tentava não gritar alto e ficava na cadeira inquieto sem saber quando a próxima cena “assustadora” aconteceria. Naquela pequena sala de cinema em Fortaleza, Ceará, ocorreram apenas cenas lamentáveis.
Olhando para trás, penso se por causa disso o filme cumpriu o seu papel dentro de rótulo de ‘filme de horror’, mas Marcados Pelo Mal nada mais é do que uma coletânea de jump scares inseridos numa narrativa que precisa melhorar muito para ser chamada de medíocre. O jump scare, que é a técnica mais banal, comum e utilizado para pegar o espectador desprevenido em filmes de terror/horror, pode trazer momentos de grande impacto, mas hoje em dia está desgastado devido ao seu uso excessivo.
Layers Of Fear quase perde o jogador no desleixo em usar tal técnica. Ele não chega a ser um jump scare simulator como Five Night at Freddy’s, mas a repetição de elementos que funcionam é usada aqui como comodismo, um certo receio em arriscar.
Medo é algo que o jogo tenta infligir no jogador e pratica em suas próprias mecânicas. Existe um medo em tentar algo diferente, brincar um pouco com uma ideia já estabelecida. Embora seja inventivo visualmente falando, Layers of Fear fará você repetir as mesmas ações durante toda a experiência e vai apresentar conceitos de novo e de novo, como se fossem coisas novas. Você está vendo uma porta agora, basta virar a câmera e ela desaparece. Isso prejudica o suspense e o senso aterrorizante que ele tenta criar.
Estamos explorando a casa e ao mesmo tempo a mente de um artista em uma coleção de crises. Casamento. Vício. Criatividade. No meio disso, o resultado é criar uma obra prima, uma pintura que resulte de todo esse esforço mental.
Várias portas e gavetas serão abertas em busca de algum significado. Bilhetes, cartas, comprovantes, recortes de jornais, objetos espalhados pelo cenário fornecem contexto a narrativa. Descobrimos mais sobre a personalidade do artista, seus defeitos, sua relação com sua esposa e filha, a situação daquela casa e ao achar pedaços com grande importância a aquela história, somos presenteados com uma ótima narração pelo protagonista.

Pinturas de artistas como Francisco Goya, Rembrandt, Hieronymus Bosch e Jan Van Eyck, podem ser vistas espalhadas pela casa. Sejam nas paredes ou jogadas ao chão, fazem parte em construir o tom sombrio e pesado de Layers Of Fear. Principalmente se olharmos algumas pinturas que os desenvolvedores escolheram de Goya, como ‘Saturno devorando um filho’ e ‘Aquelarre’ , inserindo o medo da insanidade e a visão sem esperanças na humanidade encontradas nas obras do pintor espanhol dentro da narrativa.
Além de pinturas clássicas, o jogo segue o rumo surrealista e absurdo. Uma sala com quatro portas. Você abre cada porta, uma parede de tijolos aparece com um traço da personalidade do protagonista escrita em preto:
Egoísta. Bêbado. Desesperado. Louco.
As portas se fecham e ao olhar novamente pela sala, um desenho infantil de um personagem segurando uma faca aparece. Vira-se mais uma vez e uma porta aparece como um convite para mais uma coleção de delírios fantásticos.
O capítulo em questão foca na infância. Temos pequenas inserções sobre a filha do pintor e sem entrar muito em detalhes é a parte do jogo em que realmente mostra a criatividade dos desenvolvedores dentro da arquitetura da casa e visualmente falando. É como se uma criança demoníaca tivesse passado por ali, rabiscando todas as paredes e o chão, espalhando bonecos pelo cenário. E por falar em bonecos, existem certas cenas envolvendo bonecas de porcelana que meu jesus cristo nem sei como ainda consigo dormir tranquilo depois disso.
Temos um artista obcecado por seu ofício. Esqueceu de seus familiares, suas obrigações, a sua mente está focada em criar arte e por consequência, a sua obra prima. Vemos como isso vai consumindo a sua psiquê a cada momento, fazendo-o deixar tubos de tinta e pinceis espalhados pela casa. Em dados momentos também vemos molduras, telas e cavaletes quebrados, amontoados em lugares escuros, como um ato de fúria.

Deixe-me apontar que se está acostumado ao gênero de horror, existem poucas coisas realmente interessantes. Digo, se reduzimos a quantas vezes eu tomei susto, que não foram poucas, é um prato cheio, mas lembrem-se que não é minha área de expertise. Vários palavrões foram ditos em voz alta e alguns poderiam me levar a prisão se fossem ditos em público, mas isso não muda o fato de que os truques mais baratos possíveis foram usados.
Ao terminar, toda aquela construção de uma artista psicologicamente quebrado, imagens tenebrosas, se resumem a apenas uma boa experiência de suspense. Tudo fica muito previsível e perde o charme. Pessoalmente falando, realmente não voltaria a visitar esse show de horrores, porque apesar dos diversos gritos que dei durante o jogo, Layers Of Fear é, no contexto geral apenas mais um. O jogo até me fez pensar em como produtores de conteúdo no Youtube podem influenciar o desenvolvimento de jogos numa escala geral, principalmente os de terror. Embora discorde com alguns dos argumentos levantados contra esse jogo, é possível ver claramente que algumas partes foram criadas para livestreams e youtubers.
Arte nos impacta de maneiras diferentes e embora Layers Of Fear jogue seguro enquanto uma experiência aterrorizante, nos deixa inquietos com a retração visual de um artista em crise.
