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Curtindo a vibe das qualificatórias do Red Bull Kumite

A luta para saber quem é o mais forte.

Originalmente publicado no Outerpixel em 27/04/2016

Erguido em 1865, o Salle Wagram surgiu como o principal local onde burgueses, aristocratas, barões e banqueiros parisienses dançavam até o amanhecer. Durante os anos, foi utilizado para bailes, reuniões, concertos musicais, teatro, exibição de filmes e até presenciou uma luta de boxe.

Considerado símbolo da vida cultural em Paris, esse pequeno salão de eventos localizado a poucos metros do Arco do Triunfo foi, pela segunda vez, a casa do Red Bull Kumite. Dividido em dois dias, essa celebração dos jogos de luta é uma das grandes competições de Street Figther V do ano, vindo logo em seguida do Final Round 19.

A diferença nesse ano é um dia (Sábado, 23) totalmente dedicado para as qualificatórias abertas com 256 competidores contra os 128 do ano passado. Dois deles se juntam aos 14 jogadores convidados nas finais que acontecem no dia seguinte.

O que aconteceu durante doze horas de pancadaria foi algo que só consigo descrever como surreal. Minha visão do competitivo de games ainda está associada ao profissional levado a extrema potência: apresentadores de terno, infraestrutura impecável, organização minuciosa, ambiente totalmente sério. Aquilo que vi foi basicamente uma crítica direta a estruturação de esportes eletrônicos atualmente.

Isso deve-se muito a comunidade dos jogos de luta (FGC) que em sua essência é descontraída, brincalhona, da zuera. É uma vibe que vem desde os tempos em que fliperamas eram o único meio que tais pelejas eram possíveis de se travar, com direito a xingamentos, apostas em dinheiro e esquemas de falsificar fichas para jogar o dia inteiro. Com o crescimento dos eSports, o cenário de lutinha também está seguindo a essa direção, gerando um grande medo para a comunidade.

É basicamente ver seus amigos de infância virarem certinhos, desvirtuarem completamente sem você reconhecer as qualidades que fez gosta deles no primeiro encontro. Felizmente, o Kumite conseguiu criar um ambiente profissional sem perder o charme da FGC.

Assim que cheguei, era literalmente Street Figther para todos os lados. Seja nos telões, nos monitores, estampado nas camisas de jogadores ou como decorativo nos fight sticks. Existiam vários monitores espalhados pelo lugar, cada um com um membro da organização acompanhando no tablet as chaves pelo Challonge. Enquanto vários jogos aconteciam ao mesmo tempo, alguns deles eram transmitidos ao vivo numa singela “máquina de fliperama” customizada. Até tirei algumas (muitas) fotos do evento pra tentar mostrar um pouco como tava o clima por lá.

Tudo acontecia de maneira orgânica. Competidores se sentavam, lutavam, davam a vez para o próximo e a carruagem de pancadaria seguia. Os melhores avançavam e aqueles que perderam, saem com uma expressão de derrota não tão triste continuando a andar pelo salão acompanhando as partidas. Conversas aconteciam direto, seja sobre a partida que acabou de acontecer, sobre o estado atual do jogo ou compartilhavam dicas que como melhorar como jogador.

Era claramente visível o senso de camaradagem não só entre os competidores, mas também entre as atrações principais do Kumite. Lee “Infiltration” Seon-woo chegou de fininho, com seu sapato social e jaqueta da Razer dando aquela espreitada no que estava acontecendo. Logo depois, Justin Wong dá ar de sua graça e fica no meio do salão aproveitando algumas das partidas. Fãs vem pouco a pouco para conversar com a lenda dos fighting games americano, sempre de maneira respeitosa como se fossem amigos há bastante tempo.

Dentro daquela pequenina sala, todos eram iguais. Não importa se você é uma estrela em acensão representando a América Latina que nem Keoma Pacheco ou maluco descamisado Lee “Poongko” Chung-Gon, nada vai impedir que esses dois monstros se enfrentem de boa enquanto as finais acontecem. Ou que o campeão da EVO 2013, Kun Xian Hob, venha acompanhado de Bruce “GamerBee” Yu-lin Hsiang e depois só para relaxar jogue algumas partidas com os fãs nos fliperamas que estavam espalhados por lá.

Yoshinori Ono também apareceu, mesmo que brevemente. Todo mundo que chegava nele só agradecia e parabeniza o produtor de Street Figther V pelo jogo. A comunidade sabe que vários problemas existem dentro jogo, alguns deles realmente danosos para a saúde do competitivo e esperam que a Capcom preste atenção nisso para resolver o mais rápido possível. Mesmo assim, parecia que nada disso importava já que o ato de jogar em si está em outro patamar.

Além de ser mais divertido assistir, a simplificação das mecânicas deixou a experiência como um todo mais simples para quem já jogava profissionalmente e consegue trazer novos competidores para soltar uns poderes mágicos. Ao ver Nash teleportar-se pela tela ou a fúria de Necali, é mais inteligível ver o que um jogador de alto nível consegue extrair de um personagem através de vários combos.

O primeiro dia serviu como uma grande celebração, seja você jogador profissional, amador, organizador, produtor ou comentarista, dentro do Red Bull Kumite eram todos pessoas que curtiam muito soltar uma meia-lua pra frente soco.

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