Originalmente publicado em Outerpixel em 29/04/2016
Provocações, músicas de entrada, apresentadores eufóricos, pancadaria dentro um octógono, vilões, heróis, emoções a flor da pele, plateia vibrando a cada golpe, demonstração abundante de concentração.
Parece algo digno de uma luta profissional de sangue e suor, mas do jeito que a treta rolou solta no último domingo (24), não foi muito difícil associar o Red Bull Kumite a uma grande versão distorcida de luta-livre.
A ideia de colocar 16 jogadores profissionais de Street Fighter dentro de um octógono no salão que representa parte da cultura parisiense foi tão insana em 2015 que repetiram a dose nesse ano. Presenciar o torneio passou a mesma sensação de estar dentro de um imenso show virtual de Telecatch, a ponto de eu ficar esperando o Ted Boy Marino aparecer do nada naquele palco.
Não é segredo a influência que organizações de wrestling como WWE têm dentro do cenário competitivo de jogos de luta. Em 2016, o Kumite solidificou mais uma vez essa atmosfera fanfarrona sem perder a classe de um evento sério.
Assim como as qualificatórias, a organização estava impecável em um nível quase absoluto. Tudo fluía organicamente, desde o pré-show, com as remixes de Street Fighter do Square Tune Magician, até o constante abastecimento de refrigeradores lotados de Red Bull, o jogo de câmeras ao redor do octógono, a narração furiosa do francês Yoann “Ken Boggard” Verdier, os telões mostrando cada frame trap realizado pelos competidores, as brincadeiras feitas nos intervalos e a vibe amigável exalada por todos ali presentes.

O espetáculo não podia ser mais satisfatório. Os jogadores entravam no ringue recebidos pela trilha sonora digna de um evento de anime com músicas que iam de Akira a Death Note, passando por Evangelion e Dragon Ball Z. Quando alguém era eliminado da competição, uma música triste tocava enquanto abriam uma das fechaduras da caixa que guardava o valioso troféu.
Entre as lutas, entrevistas eram feitas ao vivo com os próximos competidores e frases clássicas de cada jogador eram proferidas ali. Seja Lee “Infiltration” Seon-woo falando que não tem medo de ninguém, ou Hajime “Tokido” Taniguchi soltando o seu clássico “I body you”, por um momento parecia que estávamos assistindo aos confrontos pelo microfone que wrestlers fazem zoando uns aos outros.
Lee “Poongko” Chung-Gon já é conhecido por trazer o melhor do entretenimento quando está jogando. Seja tirando a camisa e o cinto, ou virando uma lata inteira de Red Bull, o pessoal já sabe que só coisas boas podem vir desse singelo garoto coreano. Assim que entrou no octógono, amassou com força uma lata de Red Bull após tomar o energético como um louco e, claro, fez o favor para todos nós de tirar o seu cinto e jogá-lo no chão. Quando estava perto de perder, ficou em silêncio e deu alguns tapas na cara como motivação.
Mesmo em sua segunda edição, o Kumite já acumula suas próprias histórias. Temos o favoritismo acerca dos jogadores franceses, como Olivier “Luffy” Hay, Valentin “Valmaster” Petit e Alioune Camara, que independente de suas performances recebiam aplausos calorosos da plateia. Esse carinho valeu principalmente para Luffy, praticamente um herói da comunidade francesa de jogos de luta desde quando ganhou o torneio de Ultra Street Fighter IV no EVO de 2014 utilizando o controle do primeiro PlayStation como arma de combate.
Tokido e Masato “Bonchan” Takahashi repetiram o confronto que tiveram no ano passado trazendo uma rivalidade saudável para o campeonato. Ao se enfrentarem, Tokido provocou dizendo que agora teria sua revanche, enquanto Bonchan replicou falando que faria de tudo para deixar seu adversário onde ele merece: no segundo lugar.
A cereja no topo desse bolo de treta virtual foi a narração frenética de Ken Boggard dentro da jaula junto com os atletas. Assim como Michel Buffer e Bruce Buffer, Boggard demonstrou uma presença que encapsulava o espírito do evento, mesmo sem ter um bordão ou frase de efeito na manga. Sua narração era recheada de empolgação, não importando muito se você não entendia nada do que ele falava. Só o seu tom de voz, o jeito em que se movimentava no ringue e interação passional com a plateia, já era o bastante para pular de alegria quando alguém soltava um golpe incrível.

As lutas em si refletiam o que era discutido em críticas fora do ringue. Street Fighter V alcançou o ápice da simplificação sem desmerecer o tom de complexidade que o jogo necessita. Agora, os combos são mais fáceis de se aplicar e a ação é mais inteligível – como se conseguimos dizer com facilidade quem é mais habilidoso com cada personagem e estilo de luta.
Era fácil ver uma diferença, mesmo que sutil às vezes, na maneira em que alguns jogavam com Ryu, Ken e Karin. Essa última, inclusive, foi estrela do embate entre Justin Wong e Keoma Pacheco. O gaúcho de Gravataí ficou muito na defensiva deixando Wong determinar o rumo das partidas.
Conversando com Keoma sobre esse jogo, ele disse que além de ter tomado muito dano, sua confiança não estava muito grande. “Consegui induzir Justin a um erro de espaçamento uma vez e tentei buscar isso durante o resto da partida”, comenta. “Fiquei um pouco intimidado pelo controle que ele tem da situação e do ritmo de jogo. Infelizmente joguei no seguro – até que demais, deixando que o ritmo da partida fosse dominado por ele.”
Mesmo assim, Keoma diz não se arrepender de nenhuma decisão que tomou e está muito satisfeito com que fez no evento. “Realizei o meu sonho, aquilo que me fez jogar Street Fighter competitivamente, finalmente consegui jogar contra o Umehara Daigo “, fala num tom alegre. Desde meu primeiro encontro com ele, todo suado após uma partida de DDR contra Poongko, sempre emanou uma áurea de relaxamento. Parecia que não estava nervoso, preocupado e nem perdendo os cabelos por representar a América Latina no Kumite.
“Quando tudo é tratado como uma grande festa e estou fazendo o que eu gosto com as pessoas que gosto, não tem por que ficar preocupado. Sei que quero ganhar, sei que é uma partida de campeonato, tem um pouco de nervosismo na hora, mas um evento como esse representa toda a nossa paixão como jogador e competidor, então não tem motivo para ficar roendo unha”, diz o atleta após o evento.

Apesar da demonstração de alto nível de Hadoukens e Shoryukens, ainda existe o elefante na sala que é a desorganização visível da Capcom acerca do lançamento do jogo, novos personagens, balanceamento, dificuldade em achar alguém no modo online, falta de modos de jogo interessantes, tutoriais inúteis e outros defeitos.
Uma crítica já recorrente são os 8 frames que demoram para a informação chegar na tela após apertar o botão. O input lag é algo que atinge diretamente os jogadores e precisa ser resolvido logo. Keoma comenta que é algo que o deixa extremamente chateado: “Sou um jogador focado em reação, meu tempo de reação bruta é rápido e eu não puder usar isso porque o jogo não deixa. É frustrante. Muitas vezes você não tem garantia que está fazendo algo que vai funcionar, o lag acaba tirando segurança do próprio jogo como se não te deixassem movimentar com a liberdade que precisa”.
Já Darryl “Snake Eyez” Lewis também aponta isso como um problema grave no SFV. “Os combos são fáceis de fazer, mas o input lag ainda é um problema”, comenta. “É fácil de corrigir, mas fico confuso no porquê a Capcom ainda não se prontificou a resolver isso. Eles estão se focando mais nos jogadores casuais e, francamente, não vejo eles mudarem o jogo no futuro mesmo sabendo que alguns problemas existem.”
O jogador ainda pincela sobre o quanto o seu boneco favorito, Zangief, está horrível nessa versão. Segundo Snake Eyez, o personagem dependente de barra de especial e, além de não conseguir alimentar tal barra, não possui um bom posicionamento, já que precisa ficar perto do adversário para causar um bom estrago. Lewis até questiona o que fizeram com o personagem, sentindo que o jogo parece não favorecer bonecos lentos.
“Engraçado que fiz uma entrevista com Ono, na época do beta, e expressei o quão zoado [o Zangief] tava”, comenta o jogador americano. “Ele olhou pra mim e riu, disse que tinha que descobrir o que o personagem tinha para oferecer. Eu não preciso jogar para saber o que Zangief faz. Jogo com ele faz um tempo, então tô ligado o que ele faz. Como estou ganhando de um pessoal aí, a Capcom acha que tá tudo certo, talvez tenha que perder para mostrar o meu ponto”, fala um pouco chateado e já retruca, “Mas já que não teremos grandes mudanças nos próximos meses, fico forçado a escolher um boneco top tier, que é basicamente o que tenho falado para quem quer começar a jogar Street profissionalmente”.
Talvez, com essa alta exposição a empresa japonesa olhe com carinho as reclamações gerais para construir um cenário mais saudável e consertar os problemas visíveis do jogo.
Embora o Red Bull Kumite tenha mostrado que é possível casar o profissionalismo dos esportes, com a fanfarronice do entretenimento sem que um tome o espaço do outro, a Capcom não pode usar isso como pretexto que está tudo bem. As partidas foram incríveis, o ambiente amigável me trouxe mais próximo para uma comunidade que mal tenho contato, mas o jogo em si ainda precisa comer muito feijão.
Com a vitória do Infiltration por cima do Tokido em uma das partidas mais incríveis do pouco tempo em que Street Fighter V existe, tivemos uma demonstração exímia de técnica, com movimentos calculados e golpes desferidos de maneira cirúrgica. Independentemente de quem viesse a ser o vencedor, tudo já valia a pena por assistir essas duas lendas se enfrentando.
Numa conversa pós-vitória o coreano diz que seu boneco, Nash, se adapta muito ao seu estilo de jogo com ótimos antiaéreos e magias – além de ser visualmente irado. Como ele adora personagens que soltam magias, sua escolha caiu como luva e disse que inspira na maneira em que Daigo e John Choi controlam o timing de suas magias.
Sorriso no rosto, troféu na mão, ver e ouvir Infiltration falar de maneira serena sobre sua vitória serviu como fechamento perfeito ao campeonato.
Além de zoeira, eSports, lutas virtuais, rivalidade, malas arrombadas e energéticos, o que podemos levar de lembrança de Paris? Segundo Keoma, chaveiros.
